sábado, 6 de dezembro de 2014

Texto: escravos dos supérfluos (?)

Ontem li um texto de Adriana Setti (aqui) que rendeu muito tempo pensando...
Título: Como a classe média alta brasileira é escrava do “alto padrão” dos supérfluos.

Resumindo: ela mora há 10 anos na Espanha e tem por opção própria uma vida simples, sem luxos, sem grifes. Trabalha de freelancer e pode viajar em férias durante 4 meses no ano passado.

O texto conta que seus pais decidiram passar um ano sabático na Espanha, o que "significou deixar de lado o altíssimo padrão de vida de classe média alta paulistana para adotar, como “estagiários”, o padrão de vida – mais austero e justo* – da classe média europeia".
* = por "mais austero e justo" o texto quer dizer: sem auxílio de empregado doméstico, fazendo tudo pelas próprias mãos e se locomovendo através de transporte público.

A conclusão do casal foi que estavam gastando menos na Europa, alugando apartamento, comendo fora todo dia, indo a toda atividade cultural possível diariamente, do que morando em SP em casa própria e fazendo poucos passeios.

Daí o pulo da autora para o seguinte: a classe média brasileira se mata de trabalhar fora para pagar luxos como TVs de plasmas, empregados, babás, carro último tipo, e não tem tempo para usufruir dessas mordomias e aquisições -- manter esse conforto se transforma em escravidão. Se levassem uma vida mais sustentável e sem ostentações, seriam mais livres e felizes.

O artigo tem nada menos que 1.154 comentários (!), alguns em apoio e outros de absoluta crítica.

À priori concordei com a ideia. Realmente estamos carregados de objetos, de roupas, com bagagem excessiva para uma vida. Poderíamos viver com menos.
Por outro lado...
Precisamos de carro porque o transporte público daqui não é nem de longe comparável ao da Europa.
Precisamos de alguém para nos ajudar na limpeza da casa porque aqui temos ESPAÇO em casa e, a alegria de poder escolher não ser obrigado a viver enlatado (como é comum na Europa), requer mão de obra extra para manter tudo perfeito.
Não vamos a todos os eventos culturais porque a noite da cidade é perigosa, não se pode andar à pé, o custo de estacionamento é ridículo de caro (chega a R$50 para assistir a um show) e, portanto, HAJA disposição para enfrentar tantos percalços.

Logo, o que fazemos? Ficamos em casa, confortáveis, vendo nossa TV de plasma.  :D

Criticar as escolhas de pessoas que estão vivendo condições sociais completamente diferentes das suas é muita ingenuidade.
Cara autora, venha morar em SP sendo freela e viajar em turismo 4 meses por ano dentro do nosso país. Depois disso voltamos a conversar, ok?
[lembrando: uma viagem para o Nordeste pode ficar muito mais cara que uma viagem internacional. Nada se compara com as distâncias da Europa e as viagens que se pode fazer lá por uma fração do custo exigido aqui dentro do Br].

PS: também quero passar um ano sabático na Europa gastando menos que aqui! Quem tá junto??

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