quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A que ponto chegamos...


Acabo de ler um texto claro, duro e verdadeiro no Catraca Livre: O verdadeiro retrato da moda nos dias atuais, por Bruna Toledo.
Estilista, ela trabalhou muitos anos no mercado de moda e depois o abandonou, desiludida.

Trechos que mais me marcaram:
"Eu cansei de viver num mundo de aparências onde praticamente não existe mais criação, tudo se copia descaradamente.

Eu cansei de comprar produtos na China a U$ 2 dólares para colocar na loja da Oscar Freire a R$170 reais. Cansei de me desdobrar e negociar muitas vezes os custos com fornecedores, trocar couro por material sintético para baratear o produto, enquanto meu chefe aumentava o mark up para ter mais lucro em cima das peças que eu desenvolvia. A gota d’água foi ver a dona da empresa ir na 25 de março comprar bolsas de festa a R$ 150 reais e colocar na loja a R$ 600, R$900! Os consumidores são muito enganados, não é pouco não…

E de forma geral, cansei de ser essa pessoa que ajuda a enganá-lo mais ainda, cansei de fazer treinamento de equipe chamando de “couro ecológico” o que na verdade é PVC e poliuretano, ambos derivados de petróleo e prejudiciais ao meio ambiente, com durabilidade extremamente inferior ao couro."
...
"Uma marca que economiza no produto visando lucro, comprando uma bolsa de festa bordada a U$ 10 dólares para vender a R$ 500 reais na loja e paga R$ 20 mil reais por mês para uma blogueira postar 4x (quarto vezes) por mês uma selfie no Instagram com uma roupa da marca…..desculpa! Não merece toda minha dedicação."

Leia o texto integral aqui.


Ela escancarou uma atitude que, como consumidora, tenho percebido mais e mais nas lojas: não há mais grandes diferenças de material ou de acabamento entre as grifes, o que há são grandes diferenças de preços.
Todas as lojas agora usam poliéster, acetato ou outros sintéticos (inclusive o odioso "couro sintético") na maioria das peças.
Onde ficaram o linho, a seda pura, o algodão? E como pagar fortunas por material sintético que não respira?

Mero exemplo, pinçado em 5 minutos de pesquisa num site de e-commerce (link). 
Poderia destacar mais mil semelhantes.

E olhem só quantas "vantagens" esse tal acetato nos traz:
O tecido de acetato se parece com seda; porém não tem a mesma textura ou a sensibilidade da seda natural.
Considerando que o tecido de acetato não absorve umidade, a maioria das roupas é de limpeza a seco.
Embora o tecido de acetato seja durável até certo ponto, ele precisa ser tratado corretamente, para evitar danos à integridade da fibra. Se o tecido tiver contato com esmalte ou removedor de esmaltes, ele derreterá. O site Fabrics.net afirma, no artigo "Tecidos artificiais", que álcool também derrete o tecido de acetato, então tenha cuidado ao ingerir bebidas alcoólicas ou borrifar certos perfumes diretamente no tecido.
Texto retirado do site eHow, deste link.

Fantástico como somos enganados enquanto consumidores! Já imaginou pagar R$3,5K num vestido que, na primeira festa, leva uns respingos de bebida alcoólica e derrete no lugar das gotas? 

Outro dia mesmo falei dos colares da Zara, de R$179, que são vendidos no eBay AliExpress por US$12 (neste post aqui). I-dên-ti-cos. Não é historinha, é real, eu comprovei.

Então, depois de tudo isso, lamento dizer que estou decepcionadíssima com a indústria de moda. O texto só comprovou o que já desconfiávamos: estamos sendo irremediavelmente lesados.
Minhas marcas preferidas? Chega, só comprarei após verificar procedência e material (já fazia isso, mas não era radical -- agora sou!).

É duro dizer isto, mas a ordem do dia agora é: desconfie de tudo, não embarque no produto lindo e caro sem pesquisar se não é do eBay ou da 25 de Março.
A que triste ponto chegamos...

2 comentários:

  1. Gosto muito do blog. Nunca comento. Post de utilidade máxima. Lilian

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    1. Obrigada! Volte sempre por aqui, Lilian. Beijos.

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